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Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2025

Um mundo sedento de calor humano

  (pintura de Patrick Ennis) Hoje fui passear pelo parque após o jantar. Estava uma noite quente e no parque corria uma leve brisa. Dezenas de pessoas passeavam por aí - umas brincavam com filhos, crianças com crianças, a maioria dos adolescentes jogavam basquete ou andavam de bicicleta, uns quantos idosos e alguns casais apenas se sentavam a observar tudo isso e muitos outros deambulavam de um lado para o outro. Senti que muitos esperavam algo. Os avós esperavam um abraço, o homem solteiro uma companhia e até as crianças outras crianças para brincar. Enquanto passava surgiu-me uma frase de Erling Kagge quando fez a sua excursão ao Polo Sul - ''já me senti mais sozinho em festas do que aqui, no meio da natureza.'' Um dia destes escrevi algo no meu notebook - ''Perder-me parece ser o meu antidoto para o suicídio.'' E é verdade, sinto-me menos só quando estou só que muitas vezes em grandes eventos ou grandes multidões.  Tenho em mim o desejo como escrevi u...

A Arte de escolher o caminho mais longo

  Normalmente somos pessoas apressadas, mesmo quando não temos nada, nem ninguém á nossa espera. Apanhamos o autocarro que vai pela via rápida e chega em Lisboa em 20 minutos, seguimos de metro que nos deixa quiçá no Saldanha em 12 minutos, despachamos o almoço numa sopa e sandes ou num Big Mac e matamos o tempo no telemóvel durante todas essas actividades. Passamos o nosso tempo a ver o telemovel, a fazer scroll no Tiktok ou no instagram, a ver filmes, a ler, ou mesmo a dormir em última instância. Eu, a não ser que haja pressa, ainda gosto de ir no autocarro lento que passa em todas as terras em vez do rápido. Talvez não veja nada realmente novo, talvez não seja uma viagem ''nova'' mas há sempre algo que ver. Mas mais que isso, gosto do tempo que demora o autocarro. É muito estranho. É como se aqueles 50 minutos fossem uma bolsa de ar onde posso fazer miríades de coisas - oiço musica, leio, vejo a vista, mas mais que isso, ponho os pensamentos em ordem. Após o jantar g...

Viaje

  Há dias em que tudo pesa: o corpo, os gestos, até a esperança. Nesses dias, não procuro palavras — procuro som. Som que não me obriga a ser forte. E então viajo. Não com malas, mas com alma. Viajo até Ortigueira, onde nunca estive… mas onde algo em mim parece já ter vivido. Lá, o céu não grita — apenas observa. As árvores não apontam — apenas acolhem. E o mar não julga — apenas escuta. E a areia inunda os meus pés tapando-os como o meu sofrimento. É nesse som que me refugio. Nas notas longas de Alberto Iglesias, encontro abrigo. Como se a música dissesse: “Não precisas ser mais do que és agora. Estar triste é também uma forma de estar vivo.”